À francesa!

Vai ser difícil daqui para frente relembrar os momentos detalhadamente, muito tempo já se passou mas vamos tentando!

De Andorra para França foi uma passagem rápida e simples, bem diferente de algumas fronteiras que enfrentamos nas Américas, vantagem da Comunidade Europeia. Nossa pretensão era seguir pela região de Languedoc-Roussillon no sul da França começando pelas fortalezas cátaras. O caminho foi praticamente solitário, e quanto a mim (Daniele) ,continuava com dores e enjoada, um desconforto que só piorava com os caminhos sinuosos que escolhemos.

Saindo de Andorra!
Saindo de Andorra!
Além das nuvens!!!
Além das nuvens!!!

O frio durante as noites foi piorando e durante o dia havia um vento forte e gelado que nos deixava arrepiados na hora de sair da “casinha”, mas nada melhor do que novidades pela frente para nos animar!

Já dá estrada conseguíamos ver a primeira fortaleza – Château de Puilaurensde, foi realmente impressionante ver no topo do penhasco as suas ruínas, uma pena estar fechado, tivemos que levar nossa lembrança do visual externo.

Continuamos pelas montanhas encantados, mas ainda sem poder visitar nenhuma das fortalezas, em dezembro é baixa temporada já era véspera do inverno e não havia muitos visitantes. As ruínas do Château de Queribus nos levou a usar ainda mais a imaginação, mas foi no Château de Peyrepertuse que tivemos de fato uma experiência maior caminhando primeiro pela escadaria externa que levava até o topo e depois pelos salões internos.

A primeira visão de uma fortaleza cátara!
A primeira visão de uma fortaleza cátara!

Todas as fortalezas foram construídas em locais estratégicos dificultando o acesso dos inimigos e perseguidores, e atualmente dos visitantes. Embora a vontade de subir fosse muita a de descer no meu caso era ainda maior, impressionante como até o colorido fica cinza quando não se sente fisicamente bem, o esforço para subir foi tremendo, assim como do Troller e acabamos deixando a caravana estacionada na parte baixa para alivar o peso dele.

Château de Queribus!
Château de Queribus!
Vales franceses no "país cátaro"!
Vales franceses no “país cátaro”!
Subindo para enfim visitar a primeira fortaleza!
Subindo para enfim visitar a primeira fortaleza!
Château de Peyrepertuse!!!
Château de Peyrepertuse!!!
Voadores do Château de Peyrepertuse!!!
Voadores do Château de Peyrepertuse!!!
E a gente lá em cima!
E a gente lá em cima!

Achamos melhor dirigir no final da tarde e passar a noite na encantadora Carcassonne. Novamente dormimos de graça em um estacionamento junto com alguns outros trailers, na verdade o que mais encontramos pelo caminho nos últimos dias foram alemães e ingleses fugindo para lugares com temperaturas mais amenas. A viagem desde então tem sido bem diferente, não temos saído para comer fora, não vemos tantas pessoas e as estradas se tornaram um tanto “vazias”.

Voltando ao motivo de estarmos em Carcassonne. Temos que confessar que antes desta viagem nunca tínhamos ouvido algo a respeito desta cidade, mas nada melhor do que ter a primeira impressão através de um contato real e pessoal. Carcassonne é tudo que se pode esperar de um cenário de conto de fadas, torres, muralhas, pontes, cinematográfico o lugar, nem mesmo o céu cinza daquele dia tirou seu brilho!

As torres cinematográficas de Carcassonne!
As torres cinematográficas de Carcassonne!
Caminhando por séculos de história!
Caminhando por séculos de história!
Carcassonne do lado de fora!
Carcassonne do lado de fora!

A vontade era ficar mais tempo ali, ver as luzes da cidade acessas como na noite anterior quando chegamos e não fotografamos, mas a verdade era que até chegarmos ao sul da Itália para esperarmos o inverno passar tínhamos muito o que ver e muito chão pela frente então tocamos até Narbonne.

Caminhos franceses!
Caminhos franceses!

Narbonne nos pareceu uma cidade tranquila e mais animada, acho que o sol contribuiu para isto, as pessoas estavam nos cafés e circulando pelas praças e ruas. 

Um pouco de Narbonne!
Um pouco de Narbonne!
Mercado em Narbonne!
Mercado em Narbonne!

Sempre optando pelas estradas secundárias fugindo dos pedágios chegamos à Agde, e nada de encontrar um lugar para dormir. Foi numa destas que entramos em uma rua estreita onde a caravana não passava, primeira situação de constrangimento na França :). Eu desci do carro para tentar avisar o pessoal que iríamos precisar dar ré e quando abri a porta vi outros 3 veículos colocados na nossa “traseira”. Bem, comecei tranquila com um s’il vous plaît e sinalizando com a mão para que eles dessem ré, o resultado foi uma salva de buzinas – eu ali sem falar francês, e nesta hora feliz em dizer que sem entender também. Leo estava com dificuldades para manobrar a caravana, eu sem conseguir progresso até que surgiu então um bom samaritano. Um jovem francês que falava inglês veio até nós e explicamos a situação, ele parou o trânsito fez todos recuarem e nos ajudou na manobra, ufa!  Na hora de nos despedirmos perguntamos de um lugar para dormir e ele disse que os estacionamentos gratuitos eram alvos de roubos, uma outra francesa escutando a conversa se aproximou e disse que nos guiaria até um estacionamento para seguro trailers . Não tínhamos ideia de que o estacionamento seria longe da cidade, ela nos levou pela estrada uns 8km até chegarmos ao local onde tivemos uma noite tranquila por 10 euros, mas sem sanitários, água, eletricidade ou qualquer outra comodidade.

Este de fato foi então nosso primeiro contato com o povo francês em seu país, e apesar das primeiras buzinas ficamos gratos pela solidariedade deles e cuidado conosco! Em outra ocasião eu seria a primeira a dizer para voltamos à cidade e tirar umas fotos, mas concordei em seguir.

Queríamos subir para conhecer a cidade de Roqeufort, o viaduto de Millau, os parques nacionais e outras locais promissoras e foi o que fizemos.

No meio da viagem em uma subida puxada o Troller novamente voltou a soltar a temida fumaça branca e a perder força. Fomos parando ao longo do acostamento até acharmos um posto para aplicar o selante, mas estava claro que teríamos problemas com ele nestas situações. Por fim conseguimos chegar à cidade de Millau, e de longe já dava para ver o viaduto famoso.

Viaduto de Millau!
Viaduto de Millau!

A viagem que era para ser curta se tornou longa e cansativa, primeiro por conta do problema do carro, segundo pelo meu mal-estar que não passava, neste caso decidimos ir ao hospital local antes mesmo de procurar um lugar para passar a noite.

Bem, chegamos ao hospital e fomos explicando que não falávamos francês, a atendente então disse que falava um pouco de inglês e contamos todo os acontecimentos dos últimos dias e ela nos encaminhou para uma médica que falava ainda mesmo inglês ou qualquer outra língua que pudéssemos usar para nos comunicar, mas que foi extremamente paciente e atenciosa, pediu licença para sair do consultório e então voltou com uma enfermeira que acreditem ou não, falava português!!! A enfermeira trabalhou por um ano na fronteira do Brasil com a Venezuela, estava super feliz em usar a língua. Ela colheu sangue, traduziu as perguntas da doutora, fez todos os exames de rotina e pediu que aguardássemos ali mesmo o resultado.

Eu deitada na cama e Leo sentado na cadeira olhávamos um para o outro com cara de ansiedade, depois olhávamos para a janela e víamos o tempo nublado lá fora. Foram duas longas horas de espera até a doutora retornar com o resultado e um largo sorriso fazendo o gesto de uma mãe embalando o bebê :)! Ela dizia em português: grávida, muito grávida!!!

Voltamos a nos entreolhar com alegria, espanto e um monte de coisas que se sente nestes momentos da vida, mas sem conseguir dizer nada, aí ela quebrou o gelo perguntando se queríamos o bebê. Pensei comigo se eu teria feito uma cara de espanto, mas Leo foi logo falando que sim, claro, e ela novamente perguntou se estava em nossos planos e respondemos que fazia tempo que nossos planos não saiam como o esperado e que mesmo assim não estava sendo ruim. Ela questionou como e onde iríamos ter o bebê, como iríamos fazer o acompanhamento ao longo dos outros países. Bem, claro que não tinha dado tempo de pensarmos nisto, nem mesmo a ficha da gravidez tinha caído, não tínhamos respostas para estas perguntas, mas certamente nos próximos dias estas seriam as questões que roubariam nossas noites de sono.

Ao final da consulta pela última vez ela voltou a nos perguntar se queríamos ter o bebê, confesso que fiquei aborrecida com a insistência desta pergunta, mas só depois fui informada que na França o aborto é legalizado e por isto a pergunta soava normal e natural para ela. Perguntamos se deveríamos acionar nosso seguro internacional de saúde e ela disse que não, que era gratuito, mas passou outros pedidos de exames e pediu urgência no eletro do bebê, mas que infelizmente ali só poderiam fazer três dias depois.

Caminhamos para o carro boquiabertos com a notícia. Mas é claro, como não tínhamos pensado em gravidez?! A questão dos cheiros me incomodarem, vômitos e apatia total, não somos muito entendidos nisto e tampouco acreditávamos ser possível depois de anos escutando que teria que tratar os ovários para ter bebês. Parecia que o destino tinha decidido que era hora da família crescer e mais um viajante vir ao mundo.

Encontramos um camping, eu já com o remédio para enjoo em mãos e pensando em como dar a notícia para nossas famílias. Foi naquela noite mesmo, primeiro falamos para a família do Leo, depois para a minha mãe que a princípio não acreditou, simplesmente ao escutar a notícia disse, agora tenho uma reunião, rsrsrs! Um pouco depois ela saiu da reunião voltou em casa e no skype pediu para me ver, foram todos pegos de surpresa, inclusive nós.

Vamos dar uma pausa na gravidez porque a cabeça está a mil por horas e relatar o dia seguinte em Roquefort. Eu estava decidia a não ir conhecer as grutas onde os reconhecidos queijos são fabricados a séculos, pensava no cheiro bacana me matando de enjoo, insisti muito para Leo ir sozinho, ele é doido por queijos fortes, mas de nada adiantou ele veio com o discurso que eram os dois ou nenhum, então fui!

Chegamos à cidadezinha e por toda parte víamos folhetos informando das visitadas guiadas e degustações gratuitas. Na hora marcada estávamos na fábrica junto com um grupo e começamos a descer pelas grutas, a guia educadamente sabendo que não falávamos francês nos deu uma impressão em espanhol. Já durante o documentário tudo parecia se mexer, era uma tonteira terrível que segurei firme até chegar no terceiro piso onde entreguei a impressão para ela, agradeci e subi um lance de escada com Leo me segurando pelos braços, sentei , joguei tudo que tinha na bolsa no chão e vomitei dentro dela, não queria sujar séculos de história, imagine depois avisar para o menina na entrada que tinha deixado o chão todo vomitado, nem pensar!

Roquefort!
Roquefort!

Voltamos para o camping sem comer Roquefort, aliás não tínhamos comido nada francês até então, eu nem comer queria, só mesmo a canja que Leo fazia descia, e quanto a ideia de visitar os parques nacionais desta região e da Provença cortamos do nosso roteiro, pelo menos por agora não daria, era o carro e eu ruins.

Descemos em direção ao mediterrâneo e chegamos até Nîmes. Conhecemos bem pouco da cidade, eu nem mesmo saí do carro, fazia tempo que tinha perdido a prazer em caminhar, conhecer os lugares, experimentar a comida. Estive uma única vez num Carrefour para fazer compras e achei que fosse desmaiar quando passámos pela seção de queijos.

Agora falando um pouco de Nîmes é bem agradável, 0 céu azul era “simbólico” porque a temperatura era de 8°C com ventos fortes.

Os pontos mais conhecidos da cidade são a arena, a Maison Carrée bem no meio da praça e nas proximidades a Pont du Gard –  que não visitamos.

Anfiteatro de Nimes!
Anfiteatro de Nimes!
Maison Carrée!
Maison Carrée!

Aproveitamos o tempo aqui para retornar ao hospital e fazer o exame de eletro do bebê. Novamente tivemos dificuldade com a comunicação, mas com uma equipe juntando as palavras conseguimos o que queríamos.

Foi a sensação mais sublime de nossas vidas até então ver o coração daquele “grãozinho de feijão” batendo com força.

Novo viagem à caminho!
Novo viagem à caminho!

A esta altura os remédios para enjoos não faziam nem cócegas e a situação estava cada vez pior, vômitos cinco vezes ao dia. Conversamos com nossos amigos de Barcelona e eles nos disseram para voltar, cogitamos ir para Londres onde minha prima e o marido moram para dar uma parada até o bebê nascer, mas aquela noite foi longa e difícil, analisamos todas as possibilidades, as dificuldades que encontraríamos e os benefícios de continuar ou não nas estradas neste momento. A conclusão veio após a reflexão: temos nossas famílias no Brasil, alguns dos que amamos estão doentes e não poderão se locomover para vir ao nascimento, os custos de ficar parado na Europa são altos demais, o inverno rigoroso, o plano de saúde não cobriria os gastos com o parto, o carro estava com problemas e não conseguíamos consertar, além disto viajar de Troller com barrigão seria demais, assim como depois do bebê nascer o espaço não atenderia as novas necessidades básicas. Enfim, não seria apenas parar e depois retornar, teríamos que mudar nossa estrutura, esperar um bom tempo para levar o bebê nas viagens, aguardar a minha recuperação, no final a balança já tinha mostrado qual lado pesava mais e a decisão foi VOLTAR PARA O BRASIL!

Despedimo-nos da França e retornamos para Barcelona, mas ainda sim o que poderia ser simples foi super complicado: O ENVIO DO CARRO!!! Mas está é uma outra história 🙂

9 comentários Adicione o seu

  1. Daniele Delnevo disse:

    E come si chiama il bimbo o bimba? Avete già organizzato un bel viaggio anche per lui/lei?
    Come vanno le cose? tutto ok? Un abbraccio da Daniele

    1. expedicaoih disse:

      Ciao, come stai?
      È uno bimbo, se chiama Artur!
      Abbiamo giá cominciato qualcosa per il prosimo viaggio con lui, speriamo presto 🙂
      Qui in Brasile tutto a posto, molto caldo in Rio/Niterói, e in alcuni mesi cominciará il mondiale e vediamo come sarà!
      Un abbraccio di noi 3!

  2. cesar atila rocha maciel maciel disse:

    Ola

    Acompanho vocs desde quando passaram aqui na minha regio na Serra Catarinense .

    Vou fazer uma viagem de moto agora em maio pela Europa, por acaso recebi seu e-mail com esta matria que por conhecidencia e bem o trajeto que planejei em passar . Voces tem algumas dicas de roteiro nesta regio vou passar por Bilbao, Toulouse, Viaduto Millau, Marsellie, seguindo pelo litoral ate Passo di Stevio nos Alpes Italianos

    Obrigado

    Cesar

    Date: Thu, 13 Feb 2014 12:49:46 +0000 To: cesaratila@hotmail.com

    1. expedicaoih disse:

      Oi Cesar, legal sua rota certamente terá muita coisa legal para ver por estes caminhos.
      Vamos trocar e-mails e te damos algumas dicas, e no que mais pudermos ajudar!
      Abraços!

  3. Olá. Acompanho o infinitahighway a um tempo. Na verdade é meu site preferido quando quer ver sobre expedição, pois ainda nao li tudo e admito que quanto mais eu acompanho essa maravilhora história fico ainda mais feliz em receber as informações dessa expedição.
    Sempre admirei essa coisas mas uma viagem como vocês fizeram é de surprender qualquer aventureiro!

    Tenho um troller e amo esse parceiro.
    Nunca fiz uma exoedição com ele. Mas penso em uma fim do ano.

    Enfim, quero novamente parabenizar o casal pelo exelente material apresentado e desejar toda felicidade a familia.

    Espero um dia poder conhecelos pessoalmente.

    Edson Alexandre.
    Blumenau – Sc

    1. expedicaoih disse:

      Olá Edson, ficamos feliz que tenha curtido a viagem conosco!

      Certamente teremos num futuro próximo a oportunidade de nos conhecer pessoalmente, desejamos que tenha uma ótima experiência pelas estradas com seu troller, qualquer coisa em que pudermos ajudar estamos por aqui!

      Abraços!

  4. leitor disse:

    Que legal!!!! Felicidades aos 3!!!!

  5. Maurício disse:

    Uhuuuu!! Leio o relato de vocês a um bom tempo, mas não tinha lido esse último capítulo, que notícia maravilhosa !! Imagino que logo, logo, vocês retomem as viagens de Troller, agora em família!! Parabéns !!

    Por favor, me tirem uma dúvida, vocês chegaram a fazer o seguro obrigatório do carro na Europa ? Se conseguiram poderiam me falar como fizeram ?

    Abraços e Parabéns pelo blog !!

    1. expedicaoih disse:

      Olá Maurício, obrigado, só não vai dar para continuar em família de Troller :)!

      Nós não fizemos seguro na Europa porque nosso carro não é homologado por lá, isto poderia até ser feito ás custas de muito tempo e dinheiro, não achamos interessante na ocasião. Caso vc queira ir para lá de carro, tente fazer por aqui algum seguro internacional aceito por lá como Mapfre, talvez eles aceitem cobrir alguns países.

      Abraços e qualquer coisa em que pudermos ajudar é só falar!

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